Imagens do Brasil Holandês

 
Paraíso Perdido.
É isso que se vê nas poucas obras ainda conservadas de Frans Post, pintor do Brasil Holandês. Era exatamente assim que Maurício de Nassau idealizou seu Governo no Nordeste brasileiro, a Nova Holanda.
   
Por Monique Cardoso

Pouco se sabe sobre a vida de Post antes de sua vinda para o Brasil. Ele nasceu no ano de 1612, em Haarlem, na Holanda e faleceu na mesma cidade, em 1680. Seu pai era pintor e seu irmão, o famoso arquiteto Pieter Post. Veio para o Brasil aos 24 anos, na comitiva do Conde Johan Maurits von Nassau-Siegen, em 1636, que foi enviado pela Companhia das Índias Ocidentais para governar o Brasil Holandês. Maurício de Nassau, como ficou mais conhecido, trouxe consigo militares, cientistas e dois talentosos pintores: Albert Eckhout e Frans Post. Acredita-se que este último foi indicado por seu irmão, que estava encarregado, na época, da construção de um palácio para o Conde em Haia, que lhe serviria de residência depois que voltasse do Brasil.

"O Rio São Francisco", pintado em 1638, hoje exposto no Museu do Louvre

Encarregado de registrar paisagens, batalhas e edificações, pura representação do domínio holandês na América, Frans Post pintou, nos sete anos que aqui esteve, 18 telas com temas brasileiros, retratando a topografia e as belezas naturais das províncias. Mas, os quadros serviriam, inicialmente, para decorar a residência do conde, que queria ter as vistas de seus domínios sob seus olhos, motivo bem menos nobre que a documentação dos tempos prósperos do Brasil Holandês. O número de óleos pode parecer pequeno, mas deve-se considerar que Post tinha de acompanhar Nassau em todas as suas viagens pelo nordeste, o que deixava pouco tempo para a pintura de cavalete.

Os quadros "brasileiros" de Post aliam uma grande precisão ao imediatismo da descoberta. São raros testemunhos de uma realidade nunca antes observada, telas com o inevitável impacto da revelação da natureza dos trópicos para o mundo europeu. Eram, obviamente, verdadeiras obras de arte produzidas com a tradicional técnica que se aprendia na Holanda do século XVII. Apesar de ter uma tarefa bem específica a cumprir, Frans Post não deixou de empregar uma só gota de seu talento nas vistas que pintou, emprestando liberdade e originalidade ao caráter documental que seguia ao fixar para sempre os habitantes, flores, animais, natureza, casarios, igrejas de uma terra ainda desconhecida.

Sabe-se que, provavelmente, Post não pôde conservar para si nenhuma dessas 18 telas, afinal, era um trabalho feito sob encomenda. Mas o pintor encheu um caderno inteiro com inúmeros desenhos preparatórios, que mais tarde serviriam de base para a realização de gravuras para o livro de Barléu, publicado por Maurício de Nassau, e para as centenas de quadros com temas brasileiros que pintou na Holanda, durante décadas, após seu regresso. Por causa do ineditismo total do tema, não tinha competidores na Europa. Foi o primeiro pintor a dar uma versão fiel, e ao mesmo tempo poética, da América e, talvez se não tivesse acompanhado a comitiva, seria apenas mais um paisagista holandês.

Gravura de cobre pintada à mão extraída do livro de Barléu, exemplar da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

É de suma importância o acervo produzido por Frans Post (e também Albert Eckhout) em sua permanência no Brasil, por ter sido ele o grande documentarista do Ciclo do Açúcar e da arquitetura colonial. Infelizmente, das 18 telas pintadas no Brasil, apenas sete delas ainda resistem. As outras onze, se não foram destruídas por incêndios ou acidentes, estão desaparecidas. Maurício de Nassau conservou o conjunto por 35 anos em sua residência, mas em 1679 presenteou o então rei da França, Luis XIV, com 42 obras de arte, 27 de autoria de Post, incluindo os 18 quadros "brasileiros", vindo a falecer em seguida. As obras estiveram expostas por dois meses mas, pouco depois, foram relegadas aos porões reais. Ignora-se o que aconteceu com tais quadros, que foram desaparecendo com as transferências das coleções francesas. É bem possível que a maioria tenha sido roubada ou cedida para repartições públicas, onde podem ter sido esquecidas ou mal identificadas.

Certamente o prestígio de Frans Post teria sido muito maior se este conjunto tivesse sido preservado e conservado reunido para apreciação e estudo das obras. Das sete telas, quatro estão no Louvre, duas em coleções particulares e uma no museu Mauristhuis (Casa de Maurício) em Haia. Há, porém, uma pista sobre as imagens desses quadros desaparecidos e inéditos para o mundo posterior ao século XVIII. São oito guaches feitas a partir da obra do pintor por Thierry, um artista amador francês do qual pouco se sabe. Deles, cinco se referem aos sete quadros "brasileiros" que se conhece. Isso leva a crer, com uma ponta de certeza, que os outros guaches correspondem a três dos onze óleos que ainda permanecem incógnitos. Inclusive, um quadro de Post, descoberto no mercado de arte em 1995, teve sua identificação ajudada por um desses desenhos de Thierry.

O primeiro passo para se chegar a estas imagens que o Brasil desconhece é estudar profundamente o Livro de Barléu e, quem sabe, encontrar as outras obras de Frans Post pintadas aqui num intervalo mais reduzido, revelando imagens jamais vistas.

Fontes: Iconografia e Paisagem, Coleção Cultura Inglesa; O Brasil e os Holandeses, Paulo Herkenhoff (org.) e O Brasil dos Viajantes, Ana Maria Moraes Belluzzo.

Surgimento da Nova Holanda

Com o objetivo de conquistarem supremacia e riqueza, os neerlandeses viram a expansão colonial como instrumento vital, atingindo assim as bases do poderio Ibérico, que liderava a corrida pela conquista de terras. Também visavam acabar com o problema de abastecimento na Europa. Os holandeses, antes da invasão, praticavam intenso comércio com Portugal, principalmente de pau-brasil e açúcar. Por isso, eles possuíam perfeito conhecimento, não só das condições sociais e econômicas da América portuguesa, mas também de seu litoral e de seus portos. Esse conhecimento foi indispensável à preparação e à execução dos ataques contra a Bahia e Pernambuco, feito pela Companhia das Índias Ocidentais (West Indish Compaigne, ou WIC) no século XVII.
Os Países Baixos detinham quase metade do capital da WIC e essa vantagem concedia ao governo neerlandês monopólio de comércio, navegação e conquistas de diversos territórios. A Companhia calculava que teria lucros fabulosos conquistando terras no Brasil, pois já sabiam que Pernambuco era, na época, a principal fonte produtora de açúcar do mundo. Planejavam gastar cerca de 2 milhões e 500 mil florins na conquista e previam que o lucro anual da colônia renderia 8 milhões de florins. Não esperavam encontrar, porém, tanta resistência interna, intensificada pelo fim da União Ibérica entre Portugal e Espanha, em 1640. Mesmo assim, só em 1654 é que os holandeses foram expulsos do Brasil e, na rendição, assinaram documento devolvendo os territórios ocupados.


O Livro de Barlaeus

Maurício de Nassau planejava documentar toda sua estada em terras brasileiras, entre 1636 e 1644. Ao voltar para a Holanda mandou publicar, em 1647, o livro Rerum per Octennuim in Brasilia, editado por Gaspar Barlaeus, uma crônica ilustrada contando seus feitos, o que resultou numa grande obra. Os dois pintores de sua comitiva foram encarregados também de produzir gravuras para ilustrar os volumes, sendo 32 delas assinadas por Frans Post, feitas em 1645.
Um inventário oficial francês, que relaciona as obras doadas por Maurício de Nassau a Luis XIV, não descreve os quadros de Post e nem menciona seus títulos, talvez porque uma cópia do livro de Barléu acompanhava o presente. Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro existe um raríssimo exemplar, que foi restaurado recentemente com patrocínio de um banco, o mesmo responsável pela reforma do prédio da biblioteca.


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