Veneza é uma cidade única, "a mais inverossímil das cidades" - segundo Thomas Mann. Construída sobre as águas, pairando acima do bem e do mal, a realidade da antiga República Sereníssima "ultrapassa a capacidade imaginativa do sonhador mais fantasioso" - escreveu Charles Dickens.

Texto e fotos de Litiere C. Oliveira

Chegando a Veneza de trem, o visitante já fica deslumbrado ao sair da estação Santa Lúcia e ver, logo ali em frente, o Grande Canal fervilhando de gôndolas, vaporettos e embarcações dos mais variados tipos. A grande avenida de água, com quatro quilômetros de extensão, tem suas margens ocupadas por construções antigas, igrejas e palácios, cada detalhe carregando o peso de séculos de história.

Mas, a maior emoção para mim, foi quando, depois de descer do vaporetto que me trouxe da estação e andar cerca de duzentos metros, descortinou-se a Praça de São Marcos. Fiquei ali parado, hipnotizado, admirando aquela beleza opressiva que só conhecia através dos filmes e postais. Temi que o excesso de beleza provocasse uma doença psicossomática conhecida como "Síndrome de Stendhal".

A praça São Marcos é o coração de Veneza. Em frente fica a magnífica Basílica de São Marcos e o imenso Campanário; no lado esquerdo está a Velha Procuradoria, construída no século XII, com 152 metros de comprimento e no lado direito a Nova Procuradoria, que não é tão nova assim, foi construída em 1582. Em seu interior funcionam o Museu do Risorgimento e o Museu Arqueológico. Em frente a igreja, a bandeira do leão alado, símbolo de Veneza, oscila em um mastro. Ao lado fica a Torre do Relógio, um projeto de Mauro Codussi, de 1496, onde figuras de bronze batem com martelos no grande sino. Curioso é o relógio, que mostra as fases da lua e o movimento do sol, pelo zodíaco, além de marcas as horas, claro. Do outro lado está uma das mais belas construções da cidade, o Palácio Ducal, ou dos Doges.

MAIS HISTÓRIA

Veneza é uma cidade que nasceu nas ilhas da Laguna Vêneta, no mar Adriático. Sua origem remonta ao século V, quando alguns habitantes da Aquiléia, cidade italiana importante na Antiguidade, fugiram dos hunos e se refugiaram nas ilhas pantanosas. A Aquiléia seria destruída por Átila em 452. Seus habitantes fundaram a cidade de Veneza, que foi construída sobre ilhas e ilhotas do Lido, uma lagoa protegida por um banco de areia. Á medida que crescia, as ilhas foram se interligando por pontes, as construções sendo erguidas sobre bases de pedras e paus. Os primeiros habitantes escolheram o lado mais exposto ao mar, o mesmo mar que moldou o caráter dos venezianos e que resultou na vocação para o intercâmbio que transformou Veneza no maior centro comercial marítimo do mundo, o maior porto de ligação com o Oriente e a África.

Em 697, já era um ducado governado por um doge. Ao longo da sua história, foram 120 doges, sendo o primeiro Paoluccio Anafesto (697-717), e o último, Ludovico Manin (1789-1797). O doge era sempre escolhido entre os homens mais ricos, para evitar que ele pudesse se corromper. Um conselho fiscalizava permanentemente o governante, e muitos foram assassinados. Em 827, os Venezianos trouxeram da Alexandria os restos mortais do Apóstolo São Marcos, que passou a ser o padroeiro da cidade e nome de sua praça mais famosa. A basílica começou a ser construída em 830.

Na arquitetura de Veneza se encontram elementos góticos, bizantinos, românicos, flamengos e clássicos. No início os palácios foram construídos segundo modelos orientais, tornando-se cada vez mais luxuosos. Em seguida fizeram novos palácios decorados por artistas como Tintoretto, Ticiano, Georgione e Veronese. A cidade, que possui 150 canais e 400 pontes, atingiu o seu apogeu no século XV. A República Sereníssima de Veneza existiu por mil anos.

A QUEDA

Constantinopla, que tinha sido conquistada pelo doge Eurico Dandolo, em 1204, foi tomada pelos turcos otomanos em 29 de maio de 1453. Posteriormente os portugueses e espanhóis descobriram novos caminhos marítimos e Veneza começou sua decadência. Sua queda coincidiu com a ascensão de Napoleão Bonaparte ao trono francês. Mesmo adotando uma política de neutralidade desarmada na guerra entre França e Áustria, duas grandes potências da época, Veneza foi invadida por Napoleão, que criou uma cidade democrática protegida pela França. Quatro mil soldados chegaram a ocupar a Praça São Marcos, Veneza sendo conquistada por outra nação pela primeira vez na sua história.

Veneza ficou sob o domínio francês até 8 de janeiro de 1798, quando o Tratado de Compofornio foi assinado. Desta data até 1866, ficou dominada pelo Império Habsburgo, uma dinastia que reinou na Áustria de 1278 a 1918. Em 1866, Veneza, finalmente, passou a fazer parte da Itália. Durante todo esse tempo, a cidade conseguiu resistir aos regimes, ao tempo e manteve toda a sua beleza e mistério, ostentando todo o aspecto que tinha na época do seu esplendor.

Ponte do Rialto, a primeira a ser construída em Veneza

ATRAÇÕES

Muitas outras atrações aguarda o visitante em Veneza. Na Basílica de São Marcos existe o Museu São Marcos, onde estão os restos mortais do Apóstolo e também os quatro cavalos de bronzes originais (os que estão na parte externa da igreja são cópias), que encantaram Napoleão Bonaparte ao ponto do imperador mandar retirá-los. Napoleão levou os cavalos, que depois foram recuperados e restaurados. Os estudiosos acreditam que os eqüinos foram feitos na Grécia ou em Roma, no século III ou IV a.C. No interior da basílica não se pode deixar de admirar os magníficos mosaicos.

Ao lado da igreja, o Palácio dos Doges foi transformado em museu, onde o turista encontra verdadeiras obras primas de artistas como Tintoretto, Ticiano, Rafael, entre outros, afrescos maravilhosos, mobiliário muito antigo, porcelanas, tesouros, destacando-se uma fantástica coleção de armas usadas pela guarda dos 120 doges. A construção do palácio começou no século VIII, sendo ele reconstruído cinco vezes, o que resultou em uma arquitetura com diversas influências.

Ligando o palácio à antiga prisão, a famosa Ponte dos Suspiros, por onde passavam os condenados à morte. Afirmam que se ouvia os suspiros dos infelizes ao cruzarem a ponte.

A Ponte dos Suspiros

Por falar em ponte, não se pode deixar de visitar a Ponte do Rialto, a mais antiga de Veneza, construída originalmente em madeira, em 1588, ligando duas ilhas. Rialto foi o primeiro porto da cidade. Pode-se ir a pé da Praça São Marcos até a ponte, e no caminho, nas ruas estreitas e vielas, existem muitos antiquários, lojas que vendem máscaras venezianas e lembranças. Outros passeios já exigem o uso de gôndola ou táxi (barco), entre eles a Ilha de Murano, onde se fabricam os famosos vidros. Se a preferência for pela romântica gôndola, o passeio fica mais caro, mas ir a Veneza e não viajar de gôndola é a mesma coisa que ir a Roma (Vaticano) e não ver o Papa. Pelo canal, saindo do Rialto, passa-se pela casa de Marco Polo e de outras celebridades, até chegar à Igreja de San Giorgio Maggiore, na saída do Grande Canal. Seguindo pela água, visita-se o Museu Guggenheim de Veneza, a Galeria Internacional de Arte Moderna, o Museu Oriental, o Palácio Grassi, a Galeria da Academia de Arte de Veneza e o Ca´d´Oro. Com relação às gôndolas, antigamente elas eram coloridas, mas agora são todas pretas. Dizem que ficou assim em sinal de luto por Veneza ter sido conquistada por outra nação.

A Casa onde morou Marco Polo

Estive em Veneza em Setembro, onde acontece, no primeiro Domingo do mês, um dos mais belos espetáculos da Europa: a Regata Histórica, onde gôndolas, Bissones e barcos com alegorias conduzem nobres e pessoas vestidas a caráter, revivendo a história da cidade. O evento é assistido por milhares de pessoas. Contam que, no começo a regata era organizada para homenagear a eleição do doge ou a visita de um rei estrangeiro. A partir de 1315, o governante máximo de Veneza decretou que elas aconteceriam todo ano. E assim foi, só sendo interrompida durante as duas guerras mundiais.

Historiadores contam outra versão, que a primeira regata foi organizada em 944, por um motivo inusitado. Era costume da época ser oficiado casamento coletivo na Igreja de São Pedro, no Olivolo, hoje o bairro de Castello. Acontece que, no meio da cerimônia, as noivas foram raptadas por piratas triestinos, que fugiram com elas em barcos. O doge da época, Cantiano III, que estava presente, ordenou então a imediata perseguição aos seqüestradores, que foram encontrados no momento em que faziam a partilha das donzelas nubentes. Numa versão veneziana do Rapto das Sabrinas, as noivas foram reconduzidas ao altar em um cortejo triunfal. Esse episódio deu origem à Festa Anual das Marias, que depois se transformou em Regata Histórica.

Mapa de Veneza do início do século XVI, no apogeu da cidade

História é o que não falta em Veneza. História como a do sedutor Casanova, Giovani Jacopo Casanova (1725-1789), que aproveitava a época do Carnaval (outra grande atração que acontece em fevereiro) e mascarado, seduzia e raptava as mulheres dos burgueses para manter relações amorosas. Foi Casanova que protagonizou uma espetacular fuga da até então inexpugnável prisão dos doges. Já o Carnaval veneziano não é nada parecido com o nosso. Como é realizado no inverno, as fantasias são pesadas e longas, e todos usam máscaras, verdadeiras obras de arte. Milhares de mascarados invadem a Praça de São Marcos para dançar ao som de músicas tradicionais.

A Praça São Marcos vista de outro ângulo

Quem quiser conhecer Veneza, é bom preparar o bolso. Se a Itália é um dos países mais caros da Europa, Veneza é a cidade mais cara do mundo. Na alta temporada um hotel de classe turística não sai por menos de US$ 200. Um passeio de gôndola com duração de uma hora, custa US$ 100. Parece que existe uma competição permanente entre hoteleiros, lojistas e donos de restaurantes, para ver quem tira mais dinheiro do turista. Qualquer restaurante cobra um coperto (toalha), mais uma comissão de 15% sobre a despesa e ainda a gratificação do garçom. Quanto mais perto dos canais ou da Praça São Marcos, mais caro é o coperto. Um cardápio turístico com primeiro e segundo prato, sobremesa, água e meia garrafa de vinho, em restaurante simples, custa cerca de 25 dólares por pessoa. Se um turista desavisado sentar em um dos cafés da Praça São Marcos para ouvir música de uma das orquestras que os donos dos estabelecimentos montam na frente do café, pode tomar um susto. Um café expresso custa 4 dólares, sendo incluído sete dólares de couvert artístico e mais sete de coberto, mais a comissão do garçons, tudo acaba ficando por... 20 dólares. Se o visitante for ao famoso Harris Bar (Cipriani), freqüentado por celebridades e tomar um bellini, o drink preferido de Hemingway, vai lhe custar 30 dólares.

Mas tudo vale a pena quando se trata de Veneza, da Sereníssima Veneza, uma cidade única, inverossímil mesmo.


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