Imagens do Brasil Holandês
Albert Eckhout


Pinceladas perfeitas e olhos de cientista.
Albert Eckhout, após muito observar, registrou primeiro em esboços, depois em pinturas e gravuras, a hipnotizante natureza do Nordeste Brasileiro. Através desses importantes registros iconográficos é que o velho mundo pode conhecer um Brasil real, a Nova Holanda do século XVII, bem diferente de todas as idéias fantasiosas que os europeus faziam deste continente.
Por Monique Cardoso

"Mulher tupinambá" - Albert Eckhout mostra um ser nativo em primeiro plano e ao fundo, a marca da invasão holandesa, uma enorme fazenda de cana-de-açúcar.

O pintor holandês Albert Eckhout foi companheiro de Frans Post na comitiva de Maurício de Nassau, quando o Conde veio governar o Brasil Holandês. Mas, apesar disso, não recebeu o mesmo reconhecimento que o colega. Ficou esquecido durante séculos e alguns, até hoje, contestam o valor artístico de sua obra, exaltando, apenas, seu valor documental. As comparações com Post foram inevitáveis, mas a produção dos dois pintores durante a permanência no Nordeste parece claramente complementar: um pintava as paisagens e o outro, os detalhes. A natureza e os tipos étnicos do Brasil Holandês ganharam mundo através de impressionantes painéis de Albert Eckhout, onde figuras são representadas em tamanho natural, a maioria das telas tinha mais de 2 metros de altura.

Obra de Eckhout no Museu de Copenhagen, Dinamarca: melancias, cajus, magabas, abacaxis, cocos e maracujás em flor.

Nascido em Groingen, 1610, Eckhout faleceu na mesma cidade provavelmente em 1665, e há pouquíssimas informações a seu respeito. Sabe-se apenas que, depois de retornar à Europa, ainda serviu Nassau até 1653, sendo transferido então para Dresden, na Alemanha, onde trabalhou por dez anos para o Eleitor João Jorge II. No período em que permaneceu no Brasil - de 1637 a 1644 - Eckhout, além do Recife, conheceu o interior do nordeste, a Bahia e ainda o Chile, como participante de uma expedição enviada pelo Conde. Em terras da Nova Holanda, retratou os habitantes, a fauna e a flora com riqueza de detalhes. Apesar do aspecto estático e documental, não se pode negar a perfeição artística das telas de Albert Eckhout. Seus personagens solitários ocupam exatamente o centro do espaço pictórico e parecem fitar, face a face, o espectador. A técnica e o estilo aplicados nas suas naturezas-mortas eram, sem dúvidas, consideradas inovadoras para o século XVII.

Choque entre a preservação da cultura nativa e a influência do homem branco sobre indígenas e mestiços: "Mameluca", de 1641, e "Homem tapuia", de 1643.

Quanto ao destino e preservação das obras produzidas no Brasil, Eckhout teve bem mais sorte que Post. É sabido que, no mínimo, as telas "brasileiras" do artista somam 21, nove etnográficas, onde são retratados os nativos e mestiços do Brasil, e 12 naturezas-mortas, frutas, legumes, vegetais em geral, e que elas encontram-se até hoje bem guardadas e catalogadas. Johan Maurits de Nassau-Siegen conservou-as em sua casa, em Haia, até 1654, quando ofereceu 23 originais de Eckhout - as telas "brasileiras" e dois retratos que se perderam num incêndio - ao gabinete de arte do Rei Frederico III, da Dinamarca. Hoje, a coleção de obras que Albert Eckhout pintou no nordeste do Brasil podem ser vistas no Museu de Copenhagen.

Natureza-morta representando abóboras, couves, rabanetes e pepinos-amarelos , espécie trazida da Holanda.

Por conta do cuidado que o governo Dinamarquês dedicou ao seu acervo artístico, D. Pedro II, em visita ao país em 1876, pode conhecer as obras de Eckhout e, impressionado com a beleza dos quadros e tendo reconhecido o valor artístico e histórico deles para o Brasil, encomendou cópias em tamanhos menores a Niels Aagaard Lutzen, que estão hoje preservadas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Mas, o número de telas produzidas na Nova Holanda por Albert Eckhout pode ser bem maior. Em 1652, alguns originais do pintor foram oferecidos ao Eleitor de Brandenburgo e, em 1678, outros foram dados de presente ao Rei da França. Algumas obras também podem ter sido destruídas em incêndios ocorridos no Nassauischer Hof e na Mauritshuis. É provável que o próprio Eckhout tenha conservado alguma coisa para si, pois obras suas apareceram em coleções particulares muito depois de sua morte. Embora algumas delas tenham se perdido durante a Segunda Guerra, ainda existem 80 telas produzidas nos dez anos em que artista esteve em Dresden, representando pássaros brasileiros.

É inegável que as obras de Frans Post e Albert Eckhout ajudaram a criar um levantamento completo de conteúdos botânicos, etnográficos e zoológicos, provando que tal trabalho artístico contribuiu muito no estudo de um momento histórico pouco conhecido e ainda pouco explorado por total ausência de registros mais precisos, devido a falta de cientistas e pessoas responsáveis por documentar o Brasil durante o século XVII. Os croquis e gravuras de Eckhout também fazem parte do Livro de Barleaus, dos Manuais, da Miscellana Cleyeri e do Theatru Rerum Naturalium Brasiliae. De fundamental importância para um inventário mais completo da obra desse pintor do Brasil Holandês, este livro foi considerado destruído nos escombros da Biblioteca de Berlim, em 1945, mas veio a reaparecer na Biblioteca de Jagiellonska, na Cracóvia, Polônia, e conserva cerca de 400 pinturas a óleo sobre papel e desenhos atribuídos estilisticamente a Eckhout.

Apesar de ter sido o primeiro pintor a exaltar as formas e cores exuberantes do Brasil, o pioneirismo não é o principal mérito de Eckhout. A fidelidade de reprodução dos elementos, seu conhecimento científico para expor de forma tão rica e bela o tropicalismo, a descrição minuciosa desta natureza exótica são fatores que nos mostram o quanto de sensibilidade era aplicada ao trabalho documental de Albert Eckhout, que divulgou ao mundo as imagens do Brasil, que até hoje, apesar da destruição ecológica, encantam visitantes do mundo inteiro.
Fontes: Dicionário crítico da pintura no Brasil, José Roberto Teixeira Leite; O Brasil dos Viajantes, Ana Maria de Moraes Belluzzo e Revista Geográfica Universal.

Surgimento de um povo brasileiro

A ilusão de realidade nas pinturas de Albert Eckhout é mesmo espantosa. As figuras estão de certo modo destacadas da paisagem, aspecto peculiar à técnica empregada por pintores holandeses da época, que apesar da forte marca naturalista, não deixa de apresentar alegorias poéticas. Muitas características dos tipos que habitavam o Brasil podem ser deduzidas a partir das obras do artista, e o conjunto das telas brasileiras de Eckhout mostra bem os dois lados da composição étnica da época: um Brasil que começava a se desenvolver também fora de suas recentes cidades, ainda enquanto colônia, e outro que confirmava, de certa forma, a imagem mitológica selvagem que os europeus possuíam da América.

Albert Eckhout dividiu a etnografia brasileira em quatro estados civilizatórios, pintando oito painéis que representavam quatro casais - tapuias, tupinambás, mestiços e negros - e o nono, que apresentava a "Dança tapuia". No óleo "Mulher tapuia", é feito uma série de registros iconográficos sobre a tribo, que podem ser identificados facilmente: eram bárbaros, andavam nus e em mata virgem, conservavam hábitos originais apesar da convivência com o homem branco e muitas vezes utilizavam-se da sobrevivência canibal; esse grupo foi recriado poeticamente pelo pintor holandês que procurou evidenciar o instinto animal dos tapuias.

Já na obra "Mulher tupinambá" as diferenças entre as duas tribos contemporâneas são evidentes: Caça e pesca eram praticadas com ajuda de ferramentas e utensílios bastante evoluídos, produzidos pelos próprios indígenas. Hábitos europeus já haviam sido, no século XVII, incorporados aos costumes tupinambás e podem ser percebidos nas vestimentas mais cobertas e feitas de algodão. A paisagem intocada também não era uma verdade absoluta no quadro sobre os tupinambás, no qual pode-se observar, ao fundo, uma ampla plantação de cana, uma casa grande, um engenho. E só o fato de existir um casal negro entre os painéis de Eckhout, inspirado no homem africano, conduz o observador à idéia de que o trabalho escravo já era utilizado pelo governo de Nassau na produção canavieira em Pernambuco.

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