Malhôa, ícone da pintura portuguesa

"Clara", de 1903

Conhecido em toda Europa e no Brasil, o artista José Vital Branco Malhôa nasceu em Caldas da Rainha, Portugal, em abril de 1854 e morreu nas imediações da mesma cidade, em Figueiró dos Vinhos, no ano de 1933. Esteve no Brasil para exposição em sua homenagem, no Real Gabinete Português de Leitura em 1906. Tendo suas aptidões para desenho e pintura sido reveladas logo na primeira infância, o menino José, a conselho de Leandro Braga, ingressa na Escola de Belas Artes de Lisboa, onde teve como professores Anunciação, Lupi e Simões de Almeida. Durante todo o curso apresentou muita dedicação, esforço pessoal e pode mostrar muito do seu talento. Ganhava o primeiro prêmio todos os anos.
Ao fim do curso, decepcionou-se por não ter conseguido o prêmio de viagem à Paris, para completar seus estudos como pensionista do Estado. Era de família muito humilde e não tinha recursos para viver independentemente no exterior. Tal decepção fez com que Malhôa se afastasse da pintura por algum tempo. Durante o período em que trabalhou no comércio de seu irmão, pintava apenas nas horas vagas, quando realizou a tela "A Seara Invadida", que inscreveu na exposição de Madrid, em 1882. O sucesso do quadro fez com que José Malhôa retomasse de vez sua carreira. Seu primeiro trabalho foi uma encomenda para pintar o teto da sala de concertos no Conservatório Real de Lisboa. Depois, o da sala do Supremo Tribunal de Justiça daquela cidade. A partir daí surgiram mais trabalhos que contribuíram para sua notoriedade, como a pintura do teto da sala de jantar do Palácio do Sr. Conde de Burnay e dos aposentos do infante D. Afonso.

Também foi através das encomendas de obras para prédios públicos que José Malhôa dedicou espaço em sua carreira para a pintura histórica. É desta fase o emblemático quadro "O último interrogatório do Marquês de Pombal" e "A partida de Vasco da Gama", que inscreveu no concurso da Câmara Municipal de Lisboa, no qual conseguiu o primeiro lugar, em 1888, sendo ele agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Outras obras importantes dentro da pintura histórica são os murais que se encontram no Museu da Marinha, realizados entre 1905 e 1908.

Símbolo do Naturalismo português

"O Fado", 1910

José Malhôa, porém, tornou-se um pintor muito popular em Portugal por conta dos inúmeros quadros que pintou tendo como referência as paisagens lusitanas, principalmente as que contam um pouco da história dos camponeses, predominando o espaço rural. Era uma época em que a pintura ao ar livre se difundia, por conta das novas tintas embaladas em bisnagas, o que permitia ao artista - profissional ou amador - deslocar-se para o local de observação. Antes da tinta em bisnagas os pintores faziam esboços em papel e depois reproduziam as cenas na tela. Para isso, além de um bom rascunho, precisavam de boa memória para acertar na reprodução da luz e das cores. Mesmo sendo sua obra claramente naturalista, as influências românticas não deixam de estar presentes, como as encontradas no quadro "A Beira Mar". Essa influência volta a ser marcante nas telas do final da carreira, quando a pintura de Malhôa fica mais livre e colorida.

O artista tornou-se símbolo do naturalismo não tanto com a pintura de paisagens, mas principalmente com a pintura de costumes, onde também são marcantes a tristeza e melancolia que sempre foram associadas à imagem de Portugal do século XIX e a ruralidade característica das províncias que circundam Lisboa, tais como Sintra, Figueiró dos Vinhos e Belas. Esses lugares eram freqüentados pelos artistas do Grupo do Leão, do qual pertencia Malhôa. O grupo de naturalistas era assim chamado por reunir-se sempre na choperia de mesmo nome. Dois quadros representam muito bem as características dessa pintura de costumes: "Os Bêbados", de 1907 e "O Fado", de 1910. Ambos fazem do Portugal de Malhôa um lugar mundano, com alto nível de fatalidade e pobreza. Na verdade, a obra de Malhôa, assim como o fado, tem um acentuado teor dramático.

"Azenhas do Mar"

Mas as cores vivas, a luminosidade, a alegria permeiam as diferentes fases da carreira do artista. O jeito brejeiro da camponesa do início do século traz ao espaço rural uma sensualidade possível. A obra "Clara", de 1903 mostra a beleza da mulher do campo, tema retomado em outros quadros, como "Cócegas", de 1904.
Malhôa deixou, em seu acervo, muitos retratos. Apesar da ampla difusão da fotografia na Europa naquele final do século XIX e início do XX, os retratos pintados mantiveram a sua importância porque era um forte hábito entre os membros da nobreza e do clero, imitado pela burguesia ascendente, representavam uma prova concreta da boa situação financeira do retratado.
Sua fama permitiu-lhe manter durante um bom tempo o número de encomendas de retratos, sempre oriundas da alta sociedade de Lisboa. Entre os retratos feitos por Malhôa, destacam-se os do Rei Carlos I - que estão no Tribunal de Contas e do tribunal do Comércio - ; o do príncipe D. Luís Filipe; retrato de Luísa Almedina e de Isaac Abecassis.

Com a vinda de tantos imigrantes portugueses para o Brasil, José Malhôa tornou-se também um artista relativamente conhecido por aqui mas, até hoje, a maior exposição realizada com suas obras foi a organizada pelo Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, em 1906. Foi justamente nesta época que el-rei Carlos I visitou seu atelier, despejando elogios às telas que estavam sendo selecionadas para a mostra. Eram quase cem obras. Depois disso, o Museu Nacional de Belas Artes promoveu uma exposição retrospectiva, em 1955.
Após a morte de José Malhôa ficou decidido que um museu seria dedicado à ele em Caldas da Rainha. Fundado no ano seguinte, ficou provisoriamente instalado em um pavilhão da antiga "Casa dos Barcos" até que a sede definitiva ficasse pronta, o que aconteceu em 1940. O acervo começou a ser organizado a partir de um retrato da Rainha D. Leonor, padroeira de Caldas da Rainha, que havia sido oferecido em 1926 à Antônio Montês, primeiro diretor do museu. A partir desta doação, muitas outras se seguiram, de particulares e principalmente da Fundação de Beneméritos e Doadores.

Malhôa no Brasil
"Os bêbados", um dos quadros da exposição "Amar o outro Mar"

O Museu Malhôa mantém uma exposição permanente que proporciona ao visitante um passeio pela pintura e escultura portuguesa do Naturalismo do séculos XIX e XX. Há salas inteiramente dedicadas à José Malhôa, ao Grupo do Leão - com obras de Silva Porto, Marques Oliveira, Columbano, António Ramalho, Moura Girão - e a obras de artistas da segunda geração do naturalismo, como Luciano Freire, Veloso Salgado e Carlos Reis. O museu tem ainda salas próprias para esculturas e cerâmicas, que também estão presentes no pátio.
José Malhôa voltou ao cenário mundial recentemente, com a comercialização do quadro "O Emigrante", vendido no leilão do Leone, RJ, por uma cifra astronômica. Agora, o Museu Histórico Nacional traz, de 10 de abril a 01 de junho, a exposição "Amar outro Mar: pinturas de Malhoa". São mais de 100 obras, a maioria delas vindas diretamente do Museu Malhôa.Na abertura da exposição, como não poderia deixar de ser, os convidados serão embalados por um típico conjunto de fado. O Museu confirma ainda para a ocasião, o primeiro encontro entre os Ministros da Cultura do Brasil, Gilberto Gil, e de Portugal, Pedro Roseta. Todo esse empenho só confirma que Malhôa é, de fato, o mais querido pintor de Portugal e esta é uma boa oportunidade de se tornar muito querido também por seus patrícios, brasileiros.

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