O Japão dos Deuses

"Excursão a Takao", pintura de Xano Hideyori da época do Xogunado dos Tocugava, iniciado em 1603 e no qual as artes japonesas floresceram de forma exuberante. Esta foi a época em que o Japão consolidou sua unidade nacional: os xoguns isolaram o país do resto do mundo.

Nos tempos antigos, os deuses nasciam machos e fêmeas e não possuíam o dom da eternidade, pois também morriam. Dois deles – Izanagi e Izanami, um casal de irmãos – receberam dos mais velhos a incumbência de criar o Japão. Izanagi arremessou ao ar sua lança, que passando por sobre o mar foi deixando cair gotas incandescentes, que ao tocarem a água iam transformando-se num arco de ilhas. Depois os deuses, observando a vida das rãs na água, aprenderam o segredo do acasalamento, e então criaram o povo japonês.
Quando Marco Pólo voltou da sua viagem ao Oriente, referiu-se ao Japão chamando-o Sipango, um vocábulo formado por três palavras chinesas: Ji, que quer dizer Sol; pen, que significa raiz; e koue, reino. Reino do Sol Nascente. E a palavra Japão deriva provavelmente de Japang ou Japun, pronúncia japonesa daquelas três palavras chinesas.
O período histórico do Japão teve início com a chegada do budismo às ilhas, no século VI da nossa era. No entanto, existiram na pré-história japonesa duas épocas bem características – a mítica, que correspondeu ao período dos deuses, e a legendária, quando surgiram os primeiros heróis e heroínas. O período mítico é o Kami, no qual as forças da natureza eram adoradas e responsabilizadas por todos os acontecimentos. No Plano do Alto Céu existiam vários deuses, os quais os mais notáveis foram sem dúvida os dois irmãos Izanagi e Izanami – o Homem que Convida e a Mulher que Convida. Os dois representavam o Céu e a Terra, e foram eles os criadores do Sol e da Lua, das tempestades e de outros fenômenos naturais. Para criar o Sol, Izanagi lavou seu olho esquerdo, dando origem a Amaterasu, o Olho Brilhante do Céu. Depois lavou o olho direito, e surgiu Tsuki, a deusa Lua. A Tempestade – ou Susa-no-o, Narina do Céu – apareceu quando Izanagi lavou seu nariz.

O clima de cerimônia nos templos é sempre alegre e colorido. Os cultos começam com uma procissão e depois vêm os festejos: toma-se saquê, a bebida dos deuses, dança-se e representa-se. Acima, altar com oferendas: legumes, verduras, frutas, peixes e vinhos – um banquete para os deuses

A religião primitiva do Japão, chamada xintoísmo (de shinto, o caminho dos deuses), depois religião oficial do Estado, possuía seus cultos locais. As comunidades eram governadas por chefes de clã e todos descendiam de um mesmo ancestral e possuíam o mesmo deus protetor. Os chefes detinham grande poder, pois, com a prática da poligamia, estendiam seus domínios sobre terras e pessoas a limites bastante consideráveis.
Foi no planalto de Yamato, ao sul do lago Biwa, na região central da ilha de Honshu, que se estabeleceu um desses clãs, que iria dar origem à família imperial. E é ainda a lenda quem faz as vezes de história: a deusa Amaterasu, o Sol, enviou à ilha Kyushu seu filho menor, Jimmu Tenno, que passou a governar os homens, trazendo-lhes três tesouros – a jóia, o sabre e o espelho, até hoje símbolos do poder imperial no Japão. Jimmu Tenno deixou Kyushu e, após viajar pelo mar Interior, chegou a Honshu e estabeleceu-se no planalto de Yamato, onde fundou o Império Japonês, na data que foi determinada como sendo 11 de fevereiro de 660 antes de Cristo.
De acordo com o Kojiki (Informações Sobre as Coisas Antigas), publicado em 712, Jimmu Tenno governou durante 69 anos, morrendo aos 127 anos de idade. Já para o Nihongi (Crônica Japonesa) de 720, ele teria morrido aos 137 anos. Depois dele, o trono do Reino de Yamato transmitiu-se hereditariamente.
Os acontecimentos e personagens dos quatro primeiros séculos de nossa era ficaram perdidos nas sombras dessa pré-história japonesa. Somente no século V é que escribas, leitores e tradutores coreanos introduziram no Japão a escrita chinesa, preparando-o para a penetração da cultura da China, que viria a ocorrer na segunda metade do século VI. Essa cultura transplantada incorporou-se e tomou forma própria, acabando por naturalizar-se e fazer surgir do seu bojo uma nova civilização, cheia de refinamento e originalidade.
Esse refinamento cultural tornou necessária uma religião também mais elaborada, que possuísse cerimônias mais belas e detalhadas, a fim de facilitar a realização das pretensões políticas dos governantes no seu trato com o povo, ao mesmo tempo em que também o povo já desejava encontrar uma doutrina que, além da obediência, pregasse a caridade, a piedade e a justiça. Daí a grande aceitação do budismo, quando foi introduzido, vindo da China.

 

O gigantesco torii que se ergue diante da ilha Miyajima é um dos monumentos nacionais do Japão. Geralmente encontrado diante dos templos, os toriis simbolizam a entrada aos santuários de Xintó – O Caminho dos Deuses. Em volta das arquiteturas religiosas, bucólicos jardins destinados à contemplação.

O budismo iria consolidar-se no século VIII, quando a capital do Império foi transferida da cidade de Settsu para Nara. A mudança deveu-se ainda à influência chinesa, pois Nara, situada a meio caminho entre Quioto e Osaka, era uma cópia perfeita das cidades da China, em particular da velha Hsien-yang (atual Sian), que fora a capital da dinastia T'ang, do Império do Meio. De forma retangular e compondo quadrados com suas largas avenidas, Nara possuía a simetria tão do agrado dos chineses. A época Nara, que duraria até 784, foi um período de grande progresso espiritual, principalmente do budismo. Essa época marcou também o nascimento da literatura japonesa, que de início se expressou através da poesia, que teve em Hitomaru, o Gênio da Poesia, am Akafitu, a Maravilha, e no monge budista Sosei, melancólico cantor das tristezas do outono, suas maiores expressões.
Também as belas-artes atingiram grande progresso nesse período, e a introdução do budismo permitiu a construção de edifícios e templos mais elaborados, ao contrário do que ocorria com o xintoísmo, que desprezava os prédios monumentais e a representação figurada dos deuses. Os templos budistas do Japão dos séculos VII e VIII eram basicamente idênticos aos chineses, porém mais ricamente ornamentados e com formas claras e delicadas, de telhados em curva finamente elaborados. Quanto à música e à dança, segundo a mitologia, elas surgiram no próprio momento da criação do arquipélago, pois os deuses Izanagi e Izanami dançaram e cantaram juntos enquanto executavam os atos que iriam formar as terras do Japão.
Todos esses momentos iniciais da História do Japão, carregados de lendas, de poesia e de original beleza, permanecem ainda hoje na memória e nos costumes do povo japonês. Apesar do seu incomparável desenvolvimento econômico, da superpopulação, da influência ocidentalizante norte-americana e de outras ameaças do progresso, o Japão atual ainda vive muito do seu passado lendário e orgulha-se de sua rica História. Com seus milhões de deuses, seus heróis e guerreiros, os japoneses cada vez mais se conscientizam da necessidade de preservar suas tradições, principalmente no que elas possuem de mais importante – a busca da harmonia e do verdadeiro sentido da vida.
Por G.R. Friedmann

Mitologia

Izanagi e Izanami

Segundo a mitologia japonesa, no princípio só existia um oceano de caos. Kunitokotachi, o governante eterno da terra, apareceu da massa borbulhante com duas divindades subordinadas.
Desses deuses nasceram Izanagi e sua irmã (futura esposa) Izanami, considerados enviados dos céus. Depois de criar uma ilha utilizando um arpão, ali estabeleceram um lar e criaram uma coluna sagrada.
Caminhando em direções opostas ao redor da coluna, o casal se encontrou e Izanami elogiou a beleza de Izanagi. Então se casaram e o primeiro filho que nasceu foi um monstro; o segundo, uma ilha. O casal então pediu explicações aos deuses que lhes informaram que a iniciativa do encontro sexual tinha que partir de Izanagi e não de Izanami, como vinha ocorrendo. Seguindo essa orientação, tiveram mais filhos, não só as ilhas que formam o Japão, como inúmeras divindades. O último a nascer dessa união foi Kagutsuchi, o deus do fogo, que acabou queimando Izanami, provocando sua morte. Do vômito, da urina e dos excrementos da deusa ao morrer, nasceram outros deuses.
Izanagi ficou tão furioso com o filho que matou sua mulher, que o decapitou com a espada. Das gotas de sangue do deus do fogo que caíram da espada nesceram oito deuses e do corpo sem cabeça surgiram oito divindades de montanha. Inconsolável com a morte de Izanami e como ainda não tinham acabado com o trabalho de criação da terra, Izanagi foi até a "terra das melancolias" (yomotsu-kuni) para tentar resgatar sua esposa. Ela o recebeu na porta dos infernos e pediu-lhe que esperasse ali enquanto organizava sua liberação dos poderes da morte, proibindo-o que entrasse e a olhasse de perto.
Com saudades de sua mulher, Izanagi não esperou e acendendo uma tocha, penetrou na terra da melancolia e teve a horrível visão de Izanami em plena decomposição, e em volta vermes retorcidos e serpentes. Sentindo-se humilhada, a deusa mandou soldados do inferno, mulheres horríveis e deuses do trovão para que despedaçassem Izanagi, mas este conseguiu sair do inferno e repeliu os demônios. Ao final, Izanami saiu da cova e se divorciou do marido, retornando depois para os infernos, cuja porta ficou fechada com um seixo arredondado.
Izanami se sentiu desonrado pelo acontecido e foi se purificar no mar. Ao tirar a roupa e seus objetos pessoais, estes se converteram em deuses e deusas. A sujeira que saiu no banho se transformou em outros deuses malignos, forçando Izanagi a criar deidades marinhas para manter o equilíbrio. Ao lavar o rosto, de seu olho esquerdo nasceu Amaterasu, a deusa do sol, do seu olho direito, Tsuki-yomi, o deus da lua, e do seu nariz Susanowo, o deus da tempestade.

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