Fortes do Rio
Por Monique Cardoso


Entrada do Forte de Copacabana, um dos mais procurados pelos turistas e palco de diversos eventos culturais.

A arquitetura das construções que conservam as marcas significativas de um tempo que já não existe mais, ajudam a contar um pouco da história do Rio (e também a da formação do Brasil enquanto nação soberana e livre), materializada em monumentos, prédios públicos e fortes restaurados e preservados. A maioria deles estão abertos à visitação pública, e contribuem para a valorização da nossa cultura e perpetuação da nossa história. Devido à localização estratégica a beira mar ou sobre verdes montanhas, os fortes oferecem um panorama visual privilegiado e um espetáculo de belezas naturais, e se tornaram mais um ponto de parada no roteiro turístico da Cidade Maravilhosa.
Dos 40 fortes existentes no Brasil, 12 dos mais importantes estão localizados no Rio de Janeiro. A mudança da capital colonial de Salvador para o Rio de Janeiro em 1793 e a vinda da família real para o Brasil explicam a preocupação em proteger a região litorânea com fortificações que ocupassem posições estratégicas, principalmente na Baía de Guanabara. As fortificações, mesmo rudimentares, começaram a ser construídas em 1555 na entrada da barra do Rio de Janeiro.

Fortaleza de Santa Cruz
Uma das mais importantes e antigas fortalezas é a de Santa Cruz, localizada em Jurujuba, Niterói. Improvisada ali pelo francês Villegaignon para a defesa da França Antártica, sua construção antecede a fundação da cidade do Rio de Janeiro. Tomada em 1567 por Mem de Sá passou a chamar-se Nossa Senhora da Guia e se transformou no principal ponto de defesa da Baía da Guanabara, que em 1599 sofreu o primeiro ataque de piratas holandeses.
Só em 1632, após passar por ampla reforma, passou a se chamar Fortaleza de Santa Cruz da Barra, mas o nome não se consagrou em sua forma completa. Teve importantes participações na defesa da entrada da barra do Rio de Janeiro, mas sofreu derrota na batalha contra a esquadra francesa de René Duguay-Trouin, que conseguiu invadir a Baía. No período Republicano, um acontecimento marcante foi a "Revolta da Armada", em 1893, quando a Fortaleza foi requisitada pelo Governo Constitucional para reprimir e conter navios revoltosos e outros fortes insurgentes. Em 1922 atirou contra o Forte de Copacabana e os encouraçados "Minas Gerais" e "São Paulo" na ocasião da "Revolta Tenentista". Em 1939 foi tombada pelo Patrimônio Histórico e deu seu último tiro em 1955 contra o cruzador Tamandaré.
Nas proximidades existem também os fortes do Imbuhy, Rio Branco, do Pico e São Luís. O Forte do Imbuhy foi construído em 1863 como parte das providências tomadas pelo Brasil após a "Questão Christie", episódio diplomático envolvendo Brasil e Inglaterra, por medida de segurança. As obras, porém, andavam em ritmo lento e só em 1896 os canhões foram batizados.
Personagens importantes da história do Brasil estiveram presos na Fortaleza de Santa Cruz, dentre eles Tiradentes; Bento Gonçalves, coronel que chefiou a Revolução Farroupilha; Giuseppe Garibaldi; Plínio Salgado; José Bonifácio; Euclides da Cunha; o Capitão Juarez Távora e o Brigadeiro Eduardo Gomes. Em1942 foi construída a estrada "Eurico Gaspar Dutra" sobre a rocha, permitindo assim o acesso por terra.

Fortaleza de São João
(Urca-Rio de Janeiro)
Funcionando hoje como uma das atrações turísticas do local de fundação da cidade do Rio de Janeiro, a Fortaleza de São João pertence ao sítio histórico localizado entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar. Erguida por Estácio de Sá em 1565, foi ampliada e reforçada ao longo do tempo, passando a operar oficialmente, pela defesa do território brasileiro, em 1618. Foi desarmada durante a Regência, mas em 1872, por consequência da "Questão Christie", recebeu 35 novos canhões e 3 baterias e uma ampla reforma. Até 1991 a Fortaleza foi guarnecida por artilharias de costa e desde então funciona como Centro de Capacitação do Exército.
Fortaleza da Conceição
No Centro da Cidade, em meio às modernas construções e o corre-corre do coração financeiro do Rio, encontra-se a Fortaleza da Conceição, que foi fundada em 1713. No início, o projeto previa uma fila de baterias de canhões e uma muralha, que fecharia a cidade por terra ao norte, ligando o Morro da Conceição até o Morro do Castelo - que foi destruído na reforma urbana de Pereira Passos - pela rua da Vala, hoje Uruguaiana mas, em 1726, sendo considerada inútil, a obra foi paralisada. O padre jesuíta Diogo Soares, geógrafo, preparou em 1730 a planta da Fortaleza, construída sobre o Morro da Conceição.
Em 1765 a construção ganhou uma casa de armas, conhecida pelo nome de "Capela". A "Capela" abrigou em suas masmorras, no final do século XVIII, presos da Inconfidência Mineira e alguns componentes da Sociedade Literária do Rio de Janeiro acusados de traição. No início do século passa a abrigar o Serviço Geográfico Militar e na década de 70 as instalações passam a ser ocupadas pelo recém criado Centro de Operações Cartográficas. Abriga hoje a biblioteca histórica do Serviço Geográfico do Exército.

Forte Duque de Caxias
A importância da localização geográfica do Leme para a defesa do litoral carioca foi decisiva para a construção do Forte Duque de Caxias (então Forte do Vigia, posteriormente Forte do Leme) na Ponta do Vigia, quando a cidade estava limitada pelos Morros do Castelo, São Bento, Conceição e Santo Antônio. Constituía uma barreira contra tentativas de invasão pelo Morro da Babilônia. O imponente portão de pedra na entrada do forte construído entre 1776 e 1779, ainda existe na Ladeira do Leme. No período colonial o forte ainda não possuía artilharia, mas ficou famoso pois era guarnecido pela Companhia dos Dragões de Minas, e lá serviu o alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, em 1789, pouco antes de sua prisão.
O Forte só veio a receber armas em 1823, pois temia-se um ataque da esquadra potuguesa após a Independência do Brasil. Dos cinco canhões recebidos na época, três ainda estão na praça fronteiriça à fortificação. Durante a Regência Trina (1831) foi desartilhado e voltou a defender a costa em 1863, assim como os outros fortes, na "Questão Christie", mas logo depois foi abandonado e da construção original restou apenas o portão. A reconstrução foi idealizada em 1895, mas só no governo do Marechal Hermes da Fonseca, em 1913, a instalação militar foi reconstruída, com o nome de Forte do Leme e passou a se chamar Forte Duque de Caxias por determinação de Getúlio Vargas como homenagem à fidelidade do Forte ao governo durante a Intentona Comunista. Desde 1965 o Forte abriga o Centro de Estudos de Pessoal do Exército.

Forte de Copacabana
A última fortificação construída no Rio foi o Forte de Copacabana, que é um dos mais famosos e visitados no estado. Foi inaugurado em 1914 pelo Marechal Hermes da Fonseca como a mais moderna praça de guerra da América do Sul cujos canhões "Krupp" atingiam alvos até 23 km de distância. Foi protagonista da "Revolta do Tenentes" (quando jovens militares, dentre eles, Siqueira Campos, resolveram revoltar-se contra o governo Epitácio Pessoa) por causa do dramático episódio registrado em nossa história como "Movimento dos 18 do Forte".
Seus canhões se calaram em 1987 e o Forte passa a dar sede ao Museu Histórico do Exército, afim de preservar e divulgar os feitos e atividades do Exército Brasileiro ao longo dos tempos. Dono de uma das mais belas vistas da cidade, o Forte de Copacabana se consagrou como ponto turístico, sendo tão procurado quanto o Pão de Açúcar e o Corcovado por visitantes de todo o mundo. De lá é possível observar toda a Praia de Copacabana, o Arpoador e a entrada da Baía de Guanabara, além de uma vegetação costeira nativa preservada que quase não se encontra em outro ponto da cidade. Devido a presença de tão bem estruturado Museu no local, o Forte de Copacabana, que recebe cerca de 10 mil visitantes por mês, é um dos centros de promoção de cultura e lazer na cidade do Rio de Janeiro.

Além desses, há também os Fortes São Mateus e Santo Antônio do Monte Frio, em Cabo Frio; Forte de N.S. da Boa Viagem e Gragoatá, em Niterói; Marechal Hermes, em Macaé; Ilha das Bexigas, Iticopé, Ponta Grossa, Defensor, em Parati; São Bento, Do Carmo e Ponta do Leme em Angra dos Reis. As infinitas referências históricas fornecidas pelos fortes do Estado constituem importante quesito na formação da consciência nacional. São espaços utilizados para fins culturais, ecológicos e de preservação da memória histórica do povo brasileiro que merecem ser visitados por aqueles que procuram uma opção a mais de lazer e conhecimento.
Como Chegar:
Fortaleza de Santa Cruz
Estrada Eurio Gaspar Dutra, s/n, Jurujuba-Niterói
Tel: 710-7840/711-0166
Visitas: diariamente de 9 às 17 hs

Forte de São Luiz/ do Pico/Rio Branco
Alameda Marechal Pessoa Leal, nº 265, Jurujuba-Niterói
Tel: 710-7840
Visitas: sábados, domingos e feriados de 9 às 17hs
Ingressos: Crianças e idosos R$2,00 adultos R$3,00 incluindo transporte interno

Forte do Gragoatá
Praia do Gragoatá, nº 145, São Domingos-Niterói
Tel: 717-5325
Visitas: diariamente, de 8 às 17 hs

Fortaleza de São João
Av. João Luiz Alves, s/nº, Urca
Tel: 543-3323 ramais:2056/2057/2058
Visitas: apenas grupos com hora marcada
- 2ª a 5ª de 9 às 11:30 hs e de 13:30 às 16:30 hs
- 6ª de 9 às 12 hs
Ingressos: R$ 3,00

Fortaleza da Conceição
Rua Major Daemon, nº 81, Morro da Conceição-Centro
Tel: 263-9035/233-2177 ramal:217
Visitas: 2ª a 6ª de 9 às 16 hs
Entrada Franca

Forte Duque de Caxias
Praça Almirante Júlio de Noronha, s/nº, Leme
Tel: 275-3122/275-7696
Visitas: sábados e domingos de 9 às 17 hs
Ingressos: adultos R$ 3,00 e crianças grátis, incluindo transporte interno

Forte de Copacabana
Praça Coronel Eugênio Franco, nº1, Copacabana-Posto 6
Tel: 522-4460/521-1032
Visitas: 3ª a domingo de 10 às 16 hs
Ingressos: R$ 3,00

A Questão Christie


O episódio teve origem em dois acontecimentos de pouca relevância, mas por terem sido tratados com gravidade, levou ao rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Inglaterra.
O primeiro foi em 1861, quando um navio inglês naufragou no litoral do Rio Grande do Sul e teve sua carga roubada ao atingir a praia. Como os saqueadores não foram identificados e a carga não foi recuperada pelo governo brasileiro, o diplomata britânico William Christie exigiu uma indenização no valor de 3.200 libras e a presença de um representante inglês na investigação do caso.
O segundo foi a prisão de três oficiais da Marinha Inglesa no Rio de Janeiro em 1862. Na ocasião eles estavam sem fardas e embriagados e foram presos por perturbar a ordem pública. Depois de identificados foram soltos, mas Christie julgou o caso como uma ofensa à Marinha Inglesa e exigiu a punição dos responsáveis pela prisão.
Não sendo atendido em nenhum dos dois casos, apreendeu, em represália, três navios mercantes brasileiros na Baía de Guanabara, o que constituiu um atentado contra a soberania do Brasil. As desavenças foram arbitradas por Leopoldo I, da Bélgica, que deu ganho de causa ao Brasil e condenou a Inglaterra a pedir desculpas oficiais por afrontar a soberania nacional brasileira. Como a Inglaterra não aceitou a decisão, D. Pedro II rompeu relações diplomáticas com aquele país, e só em 1865, com a apresentação das desculpas oficiais, as relações foram retomadas.


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