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Largo do Boticário
Ele faz parte do roteiro turístico da cidade, é um
dos mais belos recantos do Cosme Velho e fica bem pertinho da Estação
do Trenzinho do Corcovado, mas a maioria dos visitantes que recebe
vem de outros países. Apesar de estar eternizado nas telas
de muitos pintores e de ser cenário e fontes de inspiração
para diversos escritores, poetas e cronistas, o Largo do Boticário
ainda é território pouquíssimo explorado pelo
carioca. Aliás, o riacho que corta o Largo, o Rio Carioca -
chamado assim pelos índios tamoios -, empresta seu nome a todo
aquele que nasce na cidade do Rio de Janeiro, e muita gente nem se
dá conta de que ele está lá.
Na tentativa de modificar um pouco essa situação e
tornar o local um espaço público mais atraente, resgatando
a vocação cultural de outros tempos, um grupo de amigos
que tem em comum a paixão pelo largo está criando o
Instituto Largo do Boticário, o Larbô, que já
está deixando de ser um projeto para interferir positivamente
na vida da região. O principal objetivo do instituto é
atuar tanto na esfera cultural quanto na social, e contribuir para
a preservação do patrimônio histórico,
arquitetônico e ambiental da área.
Sem fins lucrativos, a entidade pretende promover a integração
da comunidade circundante ao largo, realizando oficinas profissionalizantes,
exposições envolvendo pintura, escultura, objetos de
arte e instalações, saraus e recitais de música
e ser um espaço aberto para novos artistas, lançamentos
de livros e discos. Jenny Roichman, diretora do Larbô, explica
que o instituto foi criado "para permitir a captação
de recursos que serão destinados a diversos projetos que já
estão em andamento. A idéia é ser de fato instituto
cultural e social auto-sustentável". Ainda segundo Jenny,
o Largo do Boticário é um local bastante relevante para
a cidade e precisava de uma atitude como esta para receber um novo
sopro de vida.
O Larbô está sediado na famosa Casa Rosa, que até
hoje pertence à família Bittencourt, proprietária
do lendário jornal "Correio da Manhã". A mansão
tem cerca de 1100 m2 de área construída e incontáveis
cômodos. É ladeada por um belíssimo jardim - reunindo
espécies raras da mata atlântica, como o pau-mulato -
que abriga uma fonte de água mineral do século XIX,
um tanque com vitórias régias e várias espécies
de orquídeas. A casa em si é uma raridade a parte. Dono
de metade dos imóveis do Largo, Dr. Paulo Bittencourt decidiu
reconstruir as casas de número 20 e 22 para morar com sua esposa
Sylvia. A obra foi de responsabilidade do arquiteto Lucio Costa e,
posteriormente, de seu discípulo Carlos Leão. Para manter
as características neoclássicas que já estavam
sendo perdidas com o passar do tempo, foram utilizados materiais de
demolição retirados de construções antigas,
inclusive dos prédios que cederam lugar à passagem da
imponente Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio.
Apesar de ter ficado fechada por um longo período e de não
ter recebido manutenção, a Casa Rosa não perdeu
o requinte do início do século passado, aliado ao talento
de Lucio Costa expressos em seus toques pessoais. Na entrada há
um grande portal, ladeado por antigas colunas de granito rescaldadas
de antigas casas demolidas, servindo inclusive de cenário para
um filme de 007. A escadaria helicoidal que liga a área social
com a familiar, que originalmente tinha degraus em mármore
rosa, é feita em madeirame e leva ao salão nobre da
antiga mansão, uma sala ampla com a galeria superior, em cujas
paredes estavam expostas as obras de arte da família Bittencourt.
A última reforma ocorreu em 1995, quando a Casa Rosa e o Largo
do Boticário foram escolhidos para sediar a Casa Cor. Desde
então, o imóvel está vazio e justamente para
aproveitar melhor este espaço que estava sendo sub utilizado,
é que o Larbô vem se empenhando na busca de recursos.
As reformas estão orçadas em cerca de 70 mil dólares
e aguardam iniciativas de apoio e patrocínio, que podem vir
de órgãos públicos ou da iniciativa privada.
Eventos dos mais diversos poderão ser realizados ali quando
o local estiver pronto.
Na parte externa, o jardim projetado por Lucio Costa e Burle Marx
separa a casa da mata atlântica, sendo um dos primeiros trabalhos
famosos do paisagista. Uma bela varanda ladeia o salão principal.
Há ainda uma capela, também feita com material antigo
e reaproveitado e uma piscina, hoje convertida em tanque de Vitórias
Régias, além da fonte revestida com azulejos portugueses,
franceses e espanhóis do século XIX. No final do jardim
existe também uma casa de hóspedes, nada menos que uma
mini-mansão ao estilo da casa principal. Ao lado dela, a entrada
para uma trilha ecológica a ser feita por entre as árvores
da mata, totalmente recuperada por iniciativa do Larbô.
A apresentação do Instituto Largo do Boticário
aconteceu no feriado de 12 de Outubro, quando mais de mil brinquedos
foram distribuídos para crianças carentes das comunidades
de Cerro Corá, Guararapes, Vila Cândido e Askurra. A
fim de somar forças em prol do bem comum, foi criada também
a associação dos Amigos do Largo do Boticário,
que aguarda o crescimento de seu corpo de sócios para se tornar
outra boa fonte geradora de recursos. O Larbô está trabalhando
- e tentando parcerias com os órgãos competentes - pela
despoluição do Rio Carioca, que nasce na mata, mas recebe
irregularmente esgoto da vizinhança.
Também está nos planos de Jenny Roichman, que aposta
no potencial do Largo do Boticário, a organização
de uma feira de antiguidades, reunindo os melhores antiquários
da cidade, onde o público terá à disposição
peças autênticas e com expertise, tanto para exposição
e quanto comercialização. A primeira edição
da feira será ainda neste mês de dezembro, mas ainda
há espaços disponíveis para expositores interessados
em participar. As oficinas profissionalizantes já estão
acontecendo, para jovens entre 12 e 17 anos, e uma exposição
de pinturas está em cartaz no hall da Casa Rosa, que em breve
vai ganhar um painel de Souza Rodrigues, retratando o Largo do Boticário
e uma lojinha para vender a produção de artesanato das
oficinas. Largo do Boticário
Um dos primeiros moradores setecentistas da região foi Cosme
Velho Pereira, comerciante estabelecido na Rua da Direita, que já
foi a mais movimentada do Rio, hoje Primeiro de Março. Banhada
pelo Rio Carioca, sua chácara ocupava uma imensa área,
cujo acesso era feito por um caminho que acabou por levar seu nome.
Após a morte do comerciante, em princípios do século
XIX, a chácara fora completamente retalhada em terrenos menores
por vários elementos da nobreza. O bairro formado recebeu o
nome de Cosme Velho. Um dos nobres a se estabelecerem no local foi
o Barão da Glória e nos fundos de sua propriedade, o
sargento mor da Colônia Joaquim da Silva Souto. O militar reformado
era muito conhecido pelo preparo de ungüentos e xaropes e por
isso recebera a denominação de boticário. |